No Vale das Lobas, na área acima da aldeia de Sobral Pichorro, existe uma incrível floresta de árvores finas e altas, com troncos castanho-claro cobertos de líquenes verdes e fofos, cujo chão está neste momento coberto por um manto de folhas a representar os tons outonais. São castanheiros, e no final de 2020 deram uns bons e deliciosos quilos de castanhas. No futuro, teremos uma estação de transformação para fazer farinha de castanha e aproveitar todas elas, durante todo o ano.

Este souto ardeu em 2017, mas está a recuperar com uma rapidez e vitalidade impressionantes. Para ajudar nesta recuperação e na manutenção da floresta temos uma equipa no local durante um par de meses, encabeçada pelo senhor Carlos. Estes senhores são sapadores florestais, e fazem um dos mais importantes trabalhos em termos de gestão da natureza em Portugal – a limpeza do mato, das florestas, das beiras das estradas... Pela melhoria da qualidade da flora destas zonas e para prevenir incêndios. São também quem está nos postos de vigia durante o verão, a soar o alarme de incêndio se virem um, mas todos sabemos que mais vale prevenir que remediar.

No outro dia subi até ao souto, montanha acima, passando o Seminário que é o futuro Nature Spa, e fui então falar com o Sr. Carlos na sua hora de almoço (ou lanchinho, mais). Ele é um senhor de baixa estatura e com um porte que mostra força e experiência, perfeito para subir às árvores com máquinas pesadas na mão. Tem um sorriso pequeno e honesto que lhe enruga os olhos, debaixo de um bigode arranjadinho. É natural do concelho, e trabalha com madeira há décadas. “A gente quando começa a trabalhar, (…) não sabia tanto como sabe hoje. Com o tempo, a trabalhar, a gente vai aprendendo.”.

Ao olhar curiosamente para a floresta, onde já se vêm bastantes ramos cortados e organizados no chão em volta das bonitas árvores, pergunto-me, e depois ao Sr. Carlos, como é que ele sabe que ramos e rebentos cortar, e qual a função da poda na verdade. Embora tenha visto árvores podadas e a ser podadas desde pequena, sobretudo oliveiras alentejanas, apercebo-me que não sei detalhes sobre este processo. Uma coisa sei: os pequenos círculos vermelhos nos troncos ou ramos indicam quais são os que serão podados.

“Se puser uma árvore, e se a deixar, ela cresce, cresce, cresce sem rumo nenhum. É como a gente quando nasce, se os pais não nos educarem não aprendemos nada. As árvores é igual. Tem de se cortar que é para elas se renovarem, senão depois crescem, crescem e as árvores morrem sem ser podadas. Se não houver podas, as árvores ficam velhas. Mas também há tipos de árvores. O pinheiro, o carvalho, isso não precisa de ser podado. Oliveiras, árvores de fruto, têm de ser podadas para dar melhor fruto. Tem de se tirar o que é ruim, o velho, para rebentar o novo.” Estes castanheiros têm também um espaço ainda longo entre elas, que dá um ar espaçoso a esta parte da floresta. “É como a gente: se estiver sozinho, pode abrir os braços, mas tiverem pegados não dá para abrir os braços.”

Como sapadores, o Sr. Carlos e a sua equipa trabalham para o Estado mas também para o setor privado. “Andamos aqui, quem nos chamar, a gente faz todo o tipo de serviços. (...) Aqui no Vale das Lobas... não sei se é a 5ª ou 6ª vez que já cá andamos. Já desde 2015.” E é verdade que do Tony, o diretor do projeto, só tenho ouvido coisas boas sobre esta equipa e o seu trabalho dos últimos anos.

“Quando comecei aqui a limpar este souto (...) não se via terreno nenhum, era só silvas e giestas. (…) Depois foi-se limpando, foi-se limpando, e temos cá andado. É porque eles gostaram do nosso trabalho.” Muito bom trabalho realmente, pois vejo entre as árvores um chão limpo, lindo, coberto de folhas e ouriços de castanhas.

“Fazemos isto tudo, esta parte toda, lá em baixo. Já quase que somos filhos da casa. (...) Nas oliveiras também já começámos. Gostaram do nosso serviço, a gente trabalha para incentivar as pessoas. (...) A gente também tem de ter um bocadito de brio no trabalho que se faz.” E o Sr. Carlos e a sua equipa gostam do Vale das Lobas também? “Sim, são gente porreira.” Aqui o seu sorriso sobressai debaixo do bigode. Consigo ver que, para além de gostar muito do seu trabalho, o Sr. Carlos gosta de trabalhar neste vale e neste projeto.

O Sr. Carlos pergunta-me então de onde eu venho. Digo-lhe que venho de Lisboa e, como todos os locais que me perguntam, ele fica espantado de ver uma lisboeta a morar na montanha, a trabalhar na aldeia. Digo-lhe que era exatamente o que eu estava à procura, mesmo sabendo que é uma vida bem diferente. “[O campo] é mais saudável, mas a maior parte das pessoas da cidade não sabem o que é o campo. Aqui há uns anos atrás estava-se melhor, porque a maior parte das pessoas vivia da terra, a terra dava mais. Hoje isto não dá nada, cultiva-se, não se vende, a mão de obra está muito cara, e depois é preciso ter muito gosto nisto para se aqui andar. (...) Eu não me lembro, (...) mas antes isto era tudo feito à mão. Dava emprego a muita gente, (...) e as pessoas vinham aqui [à floresta] para comer. Mas isto nunca volta a ser o que era.”

Refletimos então em conjunto no quanto as coisas mudaram em tão pouco tempo. O Sr. Carlos vai mais além: “Isto agora, com esta pandemia, não estará assim muito fácil. Tanto [o Vale das Lobas] como os outros. Mas que é um investimento grande? É. Que está a ficar bonito? Está. E está a dar muito emprego aí a muita gente. É bem para a aldeia, é bem para o concelho, é bem para todos. Não é muito fácil no tempo em que estamos, mas vamos ver o que dá. A gente espera que sim, que tenha sucesso. Não é?”

Esperemos que este verão continuemos a vir para fora cá dentro [citação do slogan do Turismo de Portugal] e a aproveitar este tesouro que temos aqui bem perto, nas montanhas da Serra da Estela.

É por esta altura que agradeço muito ao Sr. Carlos que se tenha disponibilizado a falar comigo, e lhe pergunto se posso tirar-lhe uma fotografia. Ele fica mesmo contente, especialmente pelo facto de eu ter subido a montanha só para conversar. Desci a montanha contente também com a minha sorte de ter este trabalho, e de poder estar diariamente neste local, sobretudo numa época destas.

“É preciso ter muito gosto nisto para se aqui andar”, tinha ele dito. Não podia concordar mais.