Esta semana trago-vos uma sugestão: encontrem um sítio calmo, mais perto ou mais longe, onde se possam sentar ou deitar ou ficar em pé enquanto tocam em algo que vos liga à Natureza. Talvez possam encontrar uma eira e ficar descalços no seu centro, ou podem sentar-se no vosso quarto enquanto tocam gentilmente na vossa planta-bebé. Quer prefiram fechar os olhos e ouvir, ou mante-los abertos e ler, deixem-me levar-vos numa caminhada pelo Vale das Lobas, agora que estamos perto do equinócio da primavera. Vou tentar mostrar-vos como é que esta primavera – na montanha, embebida na Natureza – é para mim. Espero que gostem.

Saio pela porta. O sol está quente, brilhante, a encarar-me e eu a ele, e digo-lhe bom dia. Há uma brisa forte, relembrando-me que o inverno está a acabar. Dois cães saúdam-me, abanando as caudas alegre e preguiçosamente, deitados ao sol da manhã. O pêlo deles é macio e está muito quente. Depois de semanas de tempo cinzendo e nublado, é impressionante como este dia solarengo consegue melhorar o meu humor. Sinto-me energizada, leve, social, feliz. Olho na direção da Serra, absorvendo o vale neste dia limpo – verde-escuro, verde-claro, castanho, cinzento, amarelo, branco, azul, vermelho, suave, rugoso, inclinado, plano, serpenteante. Oiço pelo menos 5 cantos e sons de aves. Oiço o cuco! O Sr. José da Cruz daqui da aldeia ensinou-me que isto é um sinal claro da chegada da primavera.

Caminho encosta acima pelo Sobral Pichorro. Por vezes passa um carro e eu e o condutor cumprimentamo-nos com um aceno. Passo por casas e jardins, que estão a florescer mais a mais abertamente a cada dia. As couves estão altas e orgulhosas, as flores estão a exibir-se, e as janelas e as portas estão abertas. Ocasionalmente passa um idoso ou uma idosa a pé, a caminho da sua horta, para tirar as daninhas, preparar as plantações, e damos sempre dois dedos de conversa. Continuo a subir, passando por casas brancas ou de pedra e por ruínas maravilhosas, demorando tempo, sentindo o terreno a mudar debaixo dos meus pés, o meu batimento cardíaco a acelerar com a subida. Passo as obras de reconstrução do futuro Nature Spa. Continuo a subir, e entro um mundo verde e cheio de água. Este é um mundo especial.

O som da água a correr é omnipresente aqui. Há tanques por todo o lado, com água que desce dos socalcos mais altos deste jardim de outro mundo. Há verde frondoso por todo o lado, e agora há mais e mais flores a popular o terreno plano dos socalcos. São pequenas e muitas – malmequeres brancos e amarelos, viperinas roxas, rosmaninho lilás, primaveras verdes, saramagos brancos, lâmio cor-de-rosa, e deliciosas calêndulas amarelas, as quais saboreio. Há amendoeiras e cerejeiras em flor – brancas e cor-de-rosa – por todo o lado. Há laranjas cor-de-laranja, algumas doces, algumas amargas. Há camélias em rosa-choque, já a perder as pétalas em chuva colorida, criando quase que um tapete vermelho de um desfile de moda. Até os muros e os degraus estão povoados, por pequenos umbigos-de-vénus. É tão bonito, colorido, brilhante. A Natureza está a sentir-se, exibindo-se ao mundo, e encoraja-nos a fazer o mesmo. Como se fosse a altura de ser nós próprios, de elevar a nossa energia, individualmente e em conjunto. De sentir e criar energia. A Natureza está convidativa, e eu sinto-me convidativa e recetiva também. Tal como as flores estão convidativas e recetivas às abelhas zumbidoras que andam por aqui. Elas criam uma atmosfera sussurrante, quase como ruído branco, atraindo-nos a este lugar e estado de deslumbre.

Ao caminhar e subir os degraus, digo olá. Como podia não o fazer – às árvores, aos arbustos, às flores, às abelhas – elas estão claramente a dizer olá de volta, tal como os aldeães fizeram, acenando em cor e som! Alguns são mais tímidos – num dos tanques há uma cobra-de-água, a cabeça dela espreitando fora de água, também a disfrutar do sol, tal como os cães. Mas quando eu me mexo, ela contorce-se, fuge para as profundezas baças e desaparece. Ali há uma rã verde na posição mais engraçada – pernas afastadas, a flutuar imóvel, cabeça à tona. Ao contrário da cobrinha tímida, ele não se mexe quando eu me mexo. Ele está claramente confortável sendo ele próprio. Ao pé do tanque do próximo terraço, vejo um outro amigo introvertido – um pequeno roedor, talvez um ratinho ou um musaranho? Quando me aproximo, os nossos olhos bem abertos encaram-se, talvez durante 2 segundos, até que esta bolinha de pelo desaparece na erva alta.

Embora esteja fresco, a água aqui é convidativa. Quase sexy. Limpa, verde-azulada, refrescante. Tem paciência, substância mágica, vamos conhecer-nos mais intimamente dentro de umas semanas. No tanque hexagonal a água é mais verde – muito frondosa, fértil, misteriosa. E tem uma creche de tritões. Eles lembram-me mini crocodilos quando nadam com as patas coladas aos flancos, ondulando rapidamente os seus corpos. A abertura da mina de água deste tanque é uma pequena janela, e neste umbigo da montanha mora uma família de pequenos e redondos morcegos. Eu digo-lhes olá também, baixinho e de cá de fora. Está na hora da sesta deles.

Paro. O vento sopra pelas árvores, pelas folhas da floresta acima e pelo meu cabelo. Rodeia-me num abraço – fresco, suave e energético. Quase que sou elevada por ele, flutuando com ele. As árvores, as flores, o meu cabelo; falam através dele. Através do vento ele movem-se, comunicam, vivem. E através do som da água corrente. Não há outro lugar onde tenha de estar neste momento, que não aqui. Claro, há sempre tarefas a cumprir, coisas práticas para tratar, mas estes momentos são demasiado preciosos, um convite irrecusável. A Natureza está a convidar-me, e a receber-me com energia, felicidade, amor. Eu demoro o meu tempo. Eu reflito-os de volta. Pelas minhas mãos a passar, as flores ganham movimento e eu ganho toque – sabe bem. Ao trepar, as árvores dão-me apoio e eu dou-lhes abraços. Pelo meu beber, eu e a água transferimos vida – partilhamos, numa troca de flúidos, como acontece neste mundo à base de H2O.

Montanha abaixo, à beira da ribeira, tiro os meus sapatos e meias. Toco no chão frio com os meus pés nus. Caminho ribeira acima. Como duas forças magnéticas opostas, eu e a ribeira fluímos juntas um bocado. O caminhar constante, os dedos dos pés a enterrar-se na terra, a água a correr, as plantas em movimento, criamos música juntos. Há batida e melodia. Eu paro, mas a música continua. Equilibro-me em direção à água, as urtigas a tocaram-me na pele e a enviar fogo pelo meu sangue, carregado de energia. Equilibro-me nas raízes dos amieiros, agarrando-os e abraçando-os com os meus dedos dos pés e a carne da minha planta do pé. Na outra margem, as ovelhas a pastar juntam-se à música com os seus badalos. Os alfaiates correm e correm na superfície da água, desafiando a gravidade, correndo para ficar no mesmo sítio contra a corrente, tal como a Alice e a Rainha Vermelha. Tal como nós.

E podemos voltar ao presente agora.

Eu escrevo e digo tudo isto em retrospetiva, claro. Enquanto lá estava, não levei o meu computador. E só tirei algumas fotos com o telefone. Mas relembrando, demorando – de novo – tempo para reviver, ganha um significado mais profundo. Se as árvores estavam vivas antes, estão ainda mais vivas agora. Se as plantas estavam sedutoras na altura, na minha memória são irresistíveis. Se o vento estava a chamar, na minha mente diz o meu nome. Ao reviver e retrabalhar a memória, a minha mente eleva uma realidade já de si mágica. Eu posso lá voltar, deixar os meus pés fisicamente levar-me lá – àqueles socalcos, à ribeira, onde quer que a Natureza fale – e posso ouvir as aves, as plantas, as pedras, a água, e posso falar-lhes de volta. Nem preciso de saber os seus nomes. Simplesmente cumprimento-os quando passo, digo bom dia, e fico feliz de os ter na minha vida. Tal como me acontece com pessoas, suponho.

E assim, mesmo caminhando ou estando sozinha, sou parte do que me rodeia, enraizada profundamente. O que significa que nunca estou sozinha.

Vale das Lobas está a caminhar em direcção a uma vida sustentável na Terra.

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