Tadelakt é uma palavra muito boa. Ouvi-a pela primeira vez há umas semanas e desde então disse-a ou ouvi-a todos os dias. E o que é afinal?

Há exatamente três anos eu estava em Marrocos, e em muitas casas existe uma textura muito específica nas paredes – térrea, corpórea. As cores são também maravilhosas: azuis fortes, amarelos vivos, vermelhos de barro, bege arenoso. E tocando-lhes, o toque é cheio e macio. Isto é o tadelakt. É um reboco à base de cal, feito e aplicado há milénios naquele canto do mundo, particularmente em áreas da casa com água como casas-de-banho, nas paredes e nas banheiras e lavatórios.

A sua estética e impermeabilidade espalharam a sua popularidade pelo mundo ocidental nas últimas décadas, e chegou ao Vale das Lobas através do Rafa, o nosso entusiasta de materiais naturais. Ele é um homem magro, com um sotaque espanhol cerrado, com olhos e sorriso imensamente gentis e uma postura corporal muito interessante – um pouco curvada, é como se ele estivesse pronto para trabalhar a qualquer altura. A maneira como ele fala das suas tentativas de fazer tadelakt, e as partilha connosco, mostra um amor profundo pelo seu ofício.

Na sua essência, o tadelakt é constituído por duas camadas de reboco – feito com uma mistura específico de cal e água – aplicado e alisado na parede. Quando estiver quase seco vem a parte divertida. Um sabão natural, à base de azeite e diluído em água, é aplicado no reboco e polido com um seixo macio – todos os centímetros quadrados. Assim é a receita milenar, e aqui foi pesquisada, escrita e testada pelo nosso Rafa, mas também por outro membro da nossa equipa: Pietro. Ele é o arquiteto in loco, um italiano-brasileiro muito alto com cabelo denso, escuro e encaracolado, que traz sempre bom humor com ele e o partilha por todo o lado. Ele também tem experimentado a receita e vendo o que resulta no caso particular dos nossos balneários no parque de campismo.

Isto porque, tal como em cozinha, contudo, as receitas não podem sempre ser seguidas à letra. Isto levou a um processo interessante de discussão, experimentação e aprendizagem para a equipa responsável pela construção no parque de campismo. Todos os detalhes foram cuidadosamente testados e ajustados para as nossas paredes de chuveiro e lavatórios azuis-céu: a quantidade de pigmento para cada camada de reboco, a textura da cor, a duração da secagem, o tipo de espátula, a origem e qualidade do sabão. Este último resultou maravilhosamente: conseguimos um sabão de azeite e óleo de côco, feito à medida e à mão de uma quinta local chamada Quinta do Cobral (a Ishbel faz produtos incríveis e também dá cursos!).

Quanto à equipa, são pessoas locais, que se conheceram e trabalham juntos há muitos anos. Alguns deles até andaram juntos na escola, e esse companheirismo é palpável, tornando-se transgeracional. No geral, são boas pessoas com quem estar. O Marco tem estado a liderar a equipa. Ele é um faz-tudo no seu extremo, com um coração gigante – e uma gargalhada também – e é fácil vê-lo à distância com o seu casaco amarelo fluorescente (ele é também o pai do cãozinho que já devem ter visto nas nossas histórias nas redes sociais, e eu a babar-me para ele, o Oreo). Ele viveu em Inglaterra umas décadas antes de voltar para a sua zona-natal especialmente para vir trabalhar no Vale das Lobas, curiosamente para trabalhar em agricultura e cultivo, mas ele é tão talentoso que está a trabalhar na construção também.

O Marco e a equipa estão unidos de uma forma especial, mesmo quando estão a fazer algo novo e desafiante como o tadelakt. A forma como estes rapazes têm aceitado o desafio é realmente inspirador, e eles – e o resultado – parece que já fizeram isto uma centena de vezes. Ao início, eles previam algumas dificuldades em aplicar este material natural, diferente dos rebocos mais comuns, mas o Tiago disse imediatamente “Então, a gente aprende! O que custa é o princípio.” Ele é um dos artesãos construtores – alguém que é reservado num primeiro contacto, mas que dado um tempo começa a descontrair e brincar, criando facilmente um ambiente leve no local de trabalho. Música também ajuda, e o Miguel, um homem gentil de conduta amável, tem ótimas listas de música a soar nos balneários. Vejo-o também muitas vezes empoleirado a rebocar as partes mais altas das paredes, e fica-me a apetece juntar-me às alturas também! Gosto muito de macacar por aí, confesso.

Já ouvi o Tony mencionar algumas vezes que está muito feliz com o facto de poder empregar artesãos locais, e eu sei que eles estão gratos pela oportunidade também: eles sentem-se bem perto de casa. E vão levar daqui boas memórias; ouvi dizer que estão a ficar afeiçoados aos seus seixos do tadelakt e que querem levá-las para casa no final, talvez até usá-las ao pescoço. Eu gosto desta ideia.

Acabo por me sentir bastante privilegiada quando me recebem na obra como alguém que lá pode pertencer, mesmo sendo nova aqui e de longe. Esse é o superpoder das pessoas desta região. Atentem no que digo: as paredes destes duches azuis, estes lavatórios azuis, neste balneário yin-yang em espiral, estarão embebidos com boa disposição.

Para uma leitura mais a fundo sobre o tadelakt, aqui estão uns quantos links úteis: