O processo de ver um edifício a ser construído a partir dos mesmos materiais que compõe a paisagem é mesmo muito bonito. Okay, kitchenettes de mármore e mogno em ilha têm imensa piada, mas alguma vez apanharam rochas do chão para fazer uma parede?

Essa é a maneira antiga, quando as pessoas usavam o que estava logo ali disponível na sua região, o que a natureza lhes dava. Aqui na Serra da Estrela, há MUITA rocha. As montanhas são constituídas essencialmente por granito, com milhões de anos de idade, e é uma característica mesmo impressionante da paisagem. Dá a este lugar uma aura de mistério, de antiguidade, de sabedoria, de gigantes de pedra e contos épicos. Por isso quando chegava (e chega) a hora de fazer uma casa ou qualquer outro edifício ou estrutura nestas encostas, se se precisa(va) de um material estável, forte para as paredes ou chão, granito era a solução à mão de semear.

O que acontece hoje em dia é que, de tantas eras de edifícios e construção, há muitas pedras já disponíveis em ruínas antigas, que já foram apanhadas e moldadas. Muitas vezes, as juntas entre as pedras já desapareceram, e elas estão simplesmente equilibradas pelo tempo, praticamente a implorar por serem salvas ou usadas. Este artigo tem duas histórias: uma de resgate, outra de reaproveitamento.

Passando a sede do Vale das Lobas, montanha acima, está o futuro Nature Spa – uma mansão senhorial do século XVII, que mais tarde foi um Seminário, que está a ser recuperada, com uma capela mágica e vistas deslumbrantes do vale, na qual podem fazer uma tour clicando no botão em baixo.

Há medida que está a ganhar nova vida, algumas paredes estão a ir abaixo, alguns telhados a ser substituídos, algumas madeiras a ser restauradas. As paredes de pedra que ficam estão desesperadamente a precisar de um facelift, depois de anos de exposição aos elementos e à erosão. O Sr. Jorge é o homem responsável por esta makeover. Ele tem uma presença muito bem-disposta, e anda pela obra com a facilidade de quem anda num chão liso com sapatos infalíveis. É muitas vezes visto com o Jorge, e ambos são extremamente acolhedores. Não quero mostrar indícios de suborno, mas é verdade que me ofereceram chá. O Sr. Jorge sénior trabalha na área da construção “há 42 ou… ou 45. Sim, é 45. Alguns 45. Mais, ainda! Quando era garoto, às vezes nas férias também ia ganhar o dinheirito (...) andava assim nas obras. Aí com 16 anitos.”.

Pergunto-lhe se ainda gostaria de trabalhar muitos anos. “Não sei, vamos lá ver. Já me reformaram o outro dia.”" Então já está reformado! "Sim." Mas ainda está a trabalhar aqui. "Sim." Também deve ser muito difícil, deixar de trabalhar de um dia para o outro. "Ah isso não! Não fico em casa, tenho sempre coisas para fazer, para um lado, para o outro. (...)"

"Em casa também não me seguro lá. Nem era meu feitio para isso. (...) Enquanto puder não paro. Sabe Deus o que me custa a passar os Sábados e os Domingos às vezes. Quando o tempo está bom não, vou lá para os terrenos, tenho que fazer. Mas quando está assim um dia de chuva... Em casa? A fazer o quê? Para ver televisão todo o dia? No outro dia acho que vi 5 ou 6 jogos de futebol. 5 ou 6 jogos, a quase a duas horas cada um, são algumas 10 horas a ver!”

O Sr. Jorge levou-me numa visita guiada do antigo Seminário-futuro Nature Spa, no qual está a trabalhar há ano e meio, e ele mostra uma preferência pelas paredes de pedra nua, algumas com uma junta maravilhosa de cor clara, feita de cal. Neste momento, Jorge e Jorge estão a trabalhar em rejuntar as paredes de pedra do edifício adjacente (futuro boticário, salas de terapias e escritório), para que, em vez de deitar as paredes abaixo, elas se tornem fortes e estáveis de novo. Primeiro, eles têm de remover todas as heras marotas que se alojaram ali, contribuindo para a delapidação das paredes, e depois estão a encher as frestas e buracos entre pedras com mais pedras pequenas e um agregante de cal. Fazem-no de baixo para cima, para que os níveis inferiores fiquem estáveis o suficiente para eventualmente suportar os superiores, e fazem-no com paciência e diligência.

"Esta [parede]quando tiver pronta, podes vir tirar uma fotografia, tiravas uma antes conforme está, aquela velha, e depois vês como está pronta, que é para depois (...) ver como ficou recuperada.”

Quando se sobe a rua inclinada em direção a este lugar mágico, há 3 portas de madeira antigas e magníficas. Uma abre para a capela, uma para a passagem panorâmica, e uma para o futuro anfiteatro. Esta é uma área ampla com janelas com ferro forjado ornamentado e paredes de pedra nua. O chão foi removido para substituição; costumava ter enormes blocos de rocha quadrada cobertos por um soalho de madeira. E como referi antes, estas pedras são material muito precioso. Então onde foram parar?

Montanha abaixo. Levantadas individualmente com corrente e grua para um trator. Transportadas. Descarregadas cuidadosamente. Reformatadas com novas medidas. E transformadas em degraus. Degraus lindos, de granito, de tamanho confortável numa escadaria entre as duas filas de Casas Hobbit. Duas pedras por degrau. Meio-acabados e já tão convidativos. E têm vizinhos. No topo da colina destas casas há uma casa em ruínas, e as suas pedras também estão a ser reaproveitadas. Desmanteladas, apanhadas e usadas para criar a ligação de calçada entre as secções da escadaria, tal como pequenos jardins de pedras (aparentemente desarranjadas).

Há algo fascinante na observação deste processo. Presta homenagem às ruínas de antigos edifícios que são desmantelados e ofereceram o seu esqueleto a estas novas paredes. E cria oportunidade para a reciclagem de material disponível como alternativa à remoção de mais pedra do solo. As pedras são pesadas, é preciso maquinaria pesada e braços fortes para as elevar para as suas novas casas, mas isto é feito com uma gentileza óbvia. E assim, há renascimento através de mãos humanas.

Vale das Lobas está a caminhar em direcção a uma vida sustentável na Terra.

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