O Dino faz-me pensar no Pai Natal se este sábio estafeta de presentes ainda fosse criança. Ele é a personificação de olhos azuis penetrantes, que quase são intimidantes até ele começar a brincar e gozar com uma gargalhada rouca e bem sonora. Também tem revelado uma natureza meiga, de forma muito serena, e a vida tem-no levado a viver em quase todos os continentes. E, claro, apresenta uma barba meritória.

O seu entusiasmo de jovem revelou-se quando me fez uma visita guiada à turbina de água que vai gerar energia elétrica no restaurante (que, já agora, vai abrir nos próximos meses! Podem começar a preparar as papilas gustativas e todos os outros sentidos). Era um dia bem molhado, mas o Dino pôs um gorro e saiu porta fora sem a mínima preocupação. Eu segui-o com uma câmara e 3043 objetos de proteção contra a chuva.

Sendo a pessoa responsável por fornecimento e aquisição, para além de planeamento financeiro e calendarização do projeto, ele tem estado bem dentro do desenvolvimento da construção, e revela um entusiasmo especial em relação à produção inovadora e autossustentável de energia. Nessa tarde cheia de chuva, o Dino levou-me a conhecer de perto a ribeira e a turbina.

“A beleza da energia hidroelétrica é, claro, que é produzida 24h por dia, o que é muito diferente da solar. (...) Por isso especialmente para estes equipamentos de cozinha como frigoríficos, que precisam de energia continuamente, são ideais para terem fornecimento a partir da turbina de água. Não vai ser suficiente para fornecer eletricidade a todo o equipamento do restaurante, mas é suficiente para estes que estão sempre ligados.”

“Está muito enlameado”, diz o Dino. Sim, tudo é água – lama e poças e rio. É o tempo perfeito para galochas. Portanto é isto a lameira, digo eu, agora percebo de onde vem o nome. O Dino ri, com ar conhecedor. “Estamos muito perto do rio” Estamos exatamente ao nível da água.

“Para contar a história da turbina, temos de viajar atrás no tempo. Este edifício era um lagar de azeite.A função que tinha antes, nós queremos exibir isso. (...) Ainda estamos a usar o poder da água – a água dá a energia, da mesma forma que dava para o moinho das azeitonas – e ao mesmo tempo queremos mostrar a nova inovação da turbina de água. (...) Estamos a trazer tecnologia nova. (...) Antes usavam-se grandes pedras no moinho, uns blocos gigantes de rocha para esmagar as azeitonas e extrair o óleo – o azeite. Vamos exibi-las numa instalação no jardim do restaurante.”

Antigamente, a água caia do canal para umas pás que faziam parte de um sistema rotatório, movendo as mós diretamente. Mas “o que temos agora chama-se uma turbina de vórtice. É diferente. Então a água não está só *boom* a cair e a girar o moinho, a água está a descer em espiral agora. E isso é muito importante, porque há mais energia com a água a descer em *espiral* no vórtice. Porque isto não é um rio grande!”

“Tivemos de calcular o fluxo de água (...) Muito interessante... divertimo-nos um bocado.” O Dino ri-se e a criança Pai Natal sai cá para fora. Eu questiono como se calcula o fluxo de uma ribeira?

“A quantidade de água que flui aqui é uma média de 700 a 900 litros por segundo, com uma queda de 1,5 metros.” Estamos agora à beira da ribeira. Há uma grande piscina de água calma acumulada no poço antes do açude – uma pequena barragem – sobre o qual há uma pequena, mas forte queda de água – é essa que tem 1,5m de altura. Depois dela, a ribeira flui rápido pelo leito que afunila. Ao longo de todo o comprimento da ribeira há árvores finas e altas a flanqueá-la – amieiros – alguns que brotam da água, outros da terra. “É mesmo lindo”, tinha-me dito a Maria do Céu no dia anterior no Seminários, quando estávamos a olhar para o rio ao fundo do vale. A Céu é a nossa ligação a esta terra, e a quem recorremos quando algo nos falta, ou mesmo quando não nos falta nada. Vão passar a conhecê-la bem. “No verão os amieiros da ribeira ficam muito verdes e dá para ver exatamente onde a ribeira corre, de bem longe!” Na piscina do açude, um passarinho muito pequeno, redondo e castanho está a saltar e a esvoaçar cheio de entusiasmo, muito perto de mim e do Dino, pronto para a foto.

“Normalmente, com um sistema de turbina convencional, isto não seria água suficiente para gerar energia. Mas com o vórtice (...) a água está a cair em espiral.” A centrifugar! “Sim! Um vórtice é como vemos na banheira.”O Dino roda um dedo em espiral, como um mini tornado.

“Portanto, a força de centrifugação, acrescentada à força para baixo, faz com que seja possível gerar eletricidade.” Que fixe! “Sim, é uma verdadeira inovação! E só encontrámos uma empresa que têm mesmo resultados *comprovados* com outros projetos no mundo – África, América Latina, Ásia (...) Por exemplo a Green School, na selva no Bali.” Esta empresa chama-se Turbulent (“muito adequado”), é belga, e eles trabalham com o objetivo de fornecer energia hidroelétrica amiga do ambiente por todo o mundo e para toda a gente. Turbulent e a equipa do Vale das Lobas discutiram o design e os materiais até encontrarem uma solução que era sustentável e também económica. Para o Dino, trabalhar com produção de energia é uma estreia, mas consigo ver que ele está muito entusiasmado por poder aprender com este trabalho.

Trepamos para cima do muro que nos separa da água corrente, ficando assim em cima do canal de água que já lá existia quando o velho lagar estava ativo, levando essa água corrente para dentro do edifício para fazer girar a turbina do moinho de azeite. O açude que cria o poço foi cuidadosamente construído para que uma porção da ribeira, com 50cm de profundidade, flua pelo canal pelo edifício adentro.

“O açude foi construído no verão passado, quando o nível da água estava muito baixo. Este poço tem 4 metros de profundidade”.

"Pensando nele através da tua lente de bióloga (...) isto é uma lagoa, que agora vai reter água durante o verão (...) estamos a criar novos habitats. (...) Não estamos só a fazer engenharia para a turbina, (...) é também para o ecossistema.” 

O passarinho atrevido continuava a saltar perto de nós, como que a concordar. “Este rio tem tartarugas! O meu filho, Alan, encontrou uma grande.” O Dino tem dois rapazes que já foram adotados pelo vale. Vai haver também um trilho de natureza ao longo da ribeira, e, embora ainda esteja frio, não paro de pensar em saltar para a lagoa num dia quente de verão.

Mais tarde, pergunto ao Tony, o diretor do projeto (já vos falei sobre o Tony? Não? Vamos voltar a ele mais tarde então), se o açude é uma barragem cerrada, e se o design também inclui as necessidades de peixes e outros animais que vivam ou passem pela ribeira. “Isto é um processo em curso”, explica-me o Tony, “Os sistemas de água naturais são criados pelo tempo, por isso com cada intervenção fazemos uma observação cuidada, e depois podemos planear o próximo passo. Nos meses de seca, podemos rearranjar. Neste inverno, estamos a confirmar que os níveis estão corretos para ativar o vórtice. No próximo verão, vamos desenhar o canal para os peixes e a fauna da ribeira.” Soube que esta instalação é o coração do Parque de Biodiversidade do Vale das Lobas, que vai ser um oásis para a natureza, e do qual vão continuar a ouvir falar nestes artigos e nas nossas atualizações (esperamos que em visitas também!)

“Do outro lado,” de volta à nossa visita à ribeira, o Dino aponta para a outra margem e mais acima da colina “vai ser a Aldeia dos Artesãos, que vai precisar de muita gestão de água também.” É aí que casas para estadias mais longas, incluindo habitação permanente, vão ser construídas, de forma completamente sustentável. Eu acenei, observando as poças infinitas criadas pela chuva pesada. Por essa altura já tinha abandonado as minhas proteções impermeáveis e adotado o look de cabelo molhado.

O Dino conta-me que durante os últimos meses de seca, para além de restaurar o açude, as margens da ribeira também foram cuidadosamente reforçadas em alguns pontos. Os antigos muros de pedra foram recuperados, e o leito limpo de entulho acumulado, que estava a bloquear o fluxo e a estagnar algumas partes da ribeira. A vê-a pela primeira vez agora, parece que corre selvagem assim há anos, com um fluxo saudável, águas límpidas e margens bonitas e exuberantes. Não suspeitaria que teve intervenção humana há poucos meses.

Nessa mesma noite e durante os dias seguintes, houve um temporal de chuva muito forte, que fortaleceu a ribeira, aumentando o fluxo e elevando imenso o nível! Estava a cascatear pela parede do açude, quase a galgar a portada que bloqueia o canal antes que a turbina esteja operacional. Havia tanta água que estava mesmo a encher o canal que sai da câmara da turbina, como se estivesse a fluir na direção contrária da ribeira, e para dentro do restaurante! Embora fosse uma emergência, foi muito bonito ver como a equipa de construção do restaurante, e não só, pôs as mãos ao trabalho rápida e serenamente para resolver este desafio. Um canal novo, improvisado, foi construído para controlar o fluxo de água da chuva e lama e proteger a zona de construção, e o canal de saída foi redirecionado para impedir que a turbina fosse inundada. É assim com a natureza – imprevisível, rápida, grandiosa – e no Vale das Lobas trabalhamos com ela diariamente. Calçamos as nossas galochas, vestimos os nossos casacos impermeáveis, e adoramos cada um destes momentos de chuva e lama.

E como calculamos afinal o fluxo de água?? (Pensavam que me tinha esquecido?).

Temos de imaginar que “a ribeira é um grande tubo de água”, e escolhemos um comprimento de 7 metros. Fazemos várias medições de largura e profundidade para calcular uma largura e profundidade média da ribeira. Com estas, temos uma média de volume! A partir daí, no início da zona de 7 metros, “pegamos numa garrafa de plástico meio-cheia de água”, deixamo-la cair na ribeira, e contamos o tempo que demora a fluir até ao fim dos 7 metros! “O Marco e eu fomos com as nossas botas, (…) foi muito divertido e científico”. Cá está o Dino Pai Natal em criança. E sim, a ciência às vezes é divertida!