Há uns tempos, no fim de Fevereiro, eu, o Tony e o Dino estávamos a mostrar o progresso do nosso restaurante à beira da ribeira ao Miguel, à Carolina e ao Dinis. Eles são a equipa maravilha que está a fazer... um documentário aqui no vale! E claro que não podia faltar uma visita ao antigo lagar, que estará pronto para vos servir comida deliciosa já este verão de 2021.

Ao aproximarmo-nos então do restaurante, o destino veio ao nosso encontro, na forma de José da Cruz e Joaquim, dois aldeães nascidos e criados no Sobral Pichorro. E assim tivemos a mais incrível visita guiada ao edifício, para Joaquim o lagar onde o pai trabalhou toda a vida, e ele durante a adolescência. Para Zé da Cruz, uma viagem aos tempos de infância, numa realidade a qual nós, nascidos perto do novo milénio, quase nem acreditamos ser verdade.

Este encontro será então contado em duas partes. Começamos por conhecer como funcionava o lagar no início da década de 60, no mesmo exato local onde o restaurante está a nascer através de reconstrução com materiais naturais e fontes de energia renovável. Na próxima e segunda parte, iremos conhecer a realidade de dois garotos nascidos nos anos 40. Este é um resumo da nossa conversa no antigo lagar de Sobral Pichorro, à beira da ribeira.

[Entramos no piso térreo do antigo lagar, futuro restaurante]

 

JOAQUIM

Tenho aqui muitas memórias. Ainda tenho uma aqui, [mostra-me uma cicatriz na mão] (...) foi uma correia (...) a correia passou-me por aqui e limpou-me aqui esta parte toda.

 

CATARINA

As memórias da pele.

 

JOAQUIM

Já lá vão, foi antes de eu ir para a tropa, em 65, já vão 60... 50 e tantos anos.

 

CATARINA

Tinha quantos anos quando estava aqui a trabalhar?

 

JOAQUIM

16, 17, 18. Fui para a tropa com 20. Foi em Agosto, ainda trabalhei aqui no lagar até Março. Depois fui para Angola.

Isto aqui era tudo olivais, o Zé da Cruz conhece, também é de cá, era do meu tempo. Só aqui a casa [o lagar], seria aqui 20 e poucos homens, 30 e tal mulheres.

 

[Aproximamo-nos do poço da turbina]

 

JOAQUIM

Isto aqui agora é para gerar eletricidade, na altura era só para trabalhar o lagar. Todas as peças do lagar trabalhavam com uma correia que saia daqui. A força motriz para todo o lagar, era aqui que saia. Era tudo parede de pedra. Nós nem a víamos [a turbina], estava sempre cheia de água, porque isto trabalhava à base de pressão de água. Se tivesse cheia, mais força dava.

Na fase do azeite era só azeite. Havia um moinho de farinha. Faziam farinha aqui por baixo. Onde trabalhava no azeite era aqui por cima. No mês do natal até Fevereiro, às vezes até Março, era só azeite. A água era a mesma, a da turbina. A água passava aqui com o ribeiro, aqui é que fazia movimentar o lagar todo, e depois saia por aqui abaixo para o ribeiro outra vez!

ZÉ DA CRUZ

Aqui havia cá dois lagares, agora não há cá nenhum.

 

JOAQUIM

E havia um na Aldeia Nova.

 

ZÉ DA CRUZ

Em todas as terras antigamente havia um lagar.

 

JOAQUIM

Havia muita azeitona! E agora quem é que a apanha?

 

CATARINA

No próximo outono também venho ajudar!

 

ZÉ DA CRUZ

Não me diga. Vêm para aí? Para a azeitona?

 

CATARINA

Venho sim senhora.

JOAQUIM

Depois ali em cima era o nosso quarto. Nós dormíamos cá. Dormíamos todos no mesmo quarto, cada um na sua cama. (...) No tempo do meu pai, eu já vinha cá dormir muitas vezes.

 

ZÉ DA CRUZ

Aqui também cá se comia comida boa. Aquele pão escuro, torrado. Uma torrada com azeite.

JOAQUIM

Na altura as pessoas matavam o porco. Um ou dois. O azeite corresse bem, desse boa maquia, como nós chamávamos, vinha um chouriço ou uma morcela ou uma  farinheira, um garrafão de vinho. Havia sempre aí garrafões de vinho, bebia-se quando se podia. Não bebíamos muito, porque pronto.

 

ZÉ DA CRUZ

Mas ainda dava para embebedar. [risos]

 

JOAQUIM

Nós à noite parávamos aí às 7 ou 8 horas. Não íamos logo para a cama! Ficávamos aí, tinha aqui uma... uma caldeira, onde aquecia a água para trabalhar. Trabalha-se à base de água quente. A base principal do azeite é água a ferver, no mínimo 90 graus. Então havia aqui uma caldeira grande, de cobre, e aqui por baixo uma fornalha. A caldeira estava sempre a ferver. Bebíamos uns copos, conversávamos, aí às 10, 11 íamos para a cama.

 

CATARINA

E levantavam-se a que horas no dia seguinte?

 

JOAQUIM

Às 6 da manhã, tínhamos despertador, tudo punha a pé. Depois íamos tomar o café, O que é que era o nosso café? Púnhamos uma panela de água fervida com azeite, que era o que havia mais, e depois um bocado de pão na tijela e era o pequeno-almoço. Era o que havia! Não havia café.

 

ZÉ DA CRUZ

Nem açúcar para se adoçar! Mas não era muito pão. Não era muito pão!

 

JOAQUIM

Bons tempos, bons tempos.

 

ZÉ DA CRUZ

Bons tempos?? Porra!

 

JOAQUIM

Bons tempos, mas na altura, não era muito fácil. Isto é um trabalho duro. Hoje entregam um saco de 20 ou 30 quilos, na altura era sacos de 100 quilos, 110. Porque não era por medida [peso], era à saca. E então tínhamos que encher bem aquilo que era para dar mais, para por no moinho. O moinho era aqui assim. [aponta para perto do poço da turbina]

CATARINA

As mós.

 

JOAQUIM

As mós, exatamente. Era aqui assim, nós íamos lá com o saco de azeitona às costas. E então aqui andávamos, semanas e semanas. Dormíamos cá. Domingo de manhã íamos embora, à noite já cá estávamos outra vez.

CATARINA

Iam só ver a família e voltavam.

 

JOAQUIM

Só. Desde que o lagar abrisse até que encerrasse, dormíamos cá todas as noites. Domingo de manhã íamos lá ao povo, passar lá o dia. À noite estávamos aqui de novo

JOAQUIM

Vou-lhe contar aqui uma história, só o António Alberto é que sabe. E o Paganeta. Ainda é vivo, o Paganeta? O Paganeta também estava cá! Era ele, e o meu irmão Amândio, e o Ti Albano. Dormíamos lá em cima todos no mesmo quarto. Cada um tinha a sua cama, cama da tropa. Um domingo viemos para baixo, eles já vinham todos bem compostos, na altura eu ainda não bebia... Ainda não tinha idade. Fomos lá para cima para o quarto, uma cama estava virada de costas lá para o Sobral, outra daquele lado, outra de outro lado, e outra de outro lado, a fazer um círculo. A do mestre era aquela lá de cima, era o que tinha a candeia e tinha o despertador. Eu fui para cima, não dormia. Eles a dormir para um lado e para o outro, o que é que eu faço? Andei para aí, o quê, umas três horas, sozinho. Ia lá além à cabeceira da cama, andava meio metro para ali, depois ia para o lado dos pés, para ali. Virei-os todos ao contrário. Virei as camas todas.

O Ti Albano dormia de costas para o Sobral. De dia, tocou o despertador, acordou, “Oh! Oh! Eu quando acordo nunca vejo aqui o Sobral e agora estou a vê-la? Oh! Houve aqui coisa! Houve aqui coisa!” Depois o Tó, um mocinho, “A minha cama também está virada ao contrário!”. E depois também [risos] o meu irmão. A minha é que não foi virada, porque não ia virar a minha cama que não valia a pena.

Eu tinha a manta por cima da cara e ria-me sozinho. E eles, “Não pode ser! O que é que aconteceu aqui de noite?” Vira-se se assim o Aurélio, era um borrachonas, “Oh, o Toni tem de ir à bruxa! Que isto é bruxaria!” E ele assim, “Qual bruxaria, qual quê, tu és masé burro. Isso não foi outro que não o Joaquim! Vós vínheis todos bêbados, adormecesteis”, mas ninguém o acreditava. Que eu sozinho não virava as camas todas.

CATARINA

Uma partida!

 

JOAQUIM

Uma partida, mesmo. Mas não acreditavam que tinha sido eu, tinham sido... bruxas.

JOAQUIM

Então a azeitona passava aqui por aquela porta. Era aqui que era armazenada, nós chamávamos tulha [ao reservatório]. A azeitona que vinha das oliveiras.

 

ZÉ DA CRUZ

Tinha tulhas em pedra, quadradas.

 

JOAQUIM

Era aqui o armazém de azeitona. Era aqui que vinham, punham aqui, Era aqui o armazém de azeitona. Era aqui que vinham, punham aqui, e nós vínhamos aqui buscar para a moagem. Havia aqui umas mesas em pedra, e então cada um tinha a sua divisão. Que é para saber de quem era o dono! Depois saiamos com um carro de mão por ali, por aquela porta.

 

CATARINA

Vamos então lá acima ver o seu antigo quarto?

 

JOAQUIM

Foram muitos anos. É o que lhe digo, eu fui aqui criado de pequeno que vinha cá para pé do meu pai. O meu pai é que era cá o mestre. E eu vinha para cá com ele que era para cá dormir e comer.

 

CATARINA

E para se juntar à festa!

[Já fora, à porta do antigo lagar]

 

JOAQUIM

O bagaço saía por aqui. Sabe o que é o bagaço, é o resto da azeitona. Então ia para a fábrica que era para depois fazer óleo e outras coisas, para ração e assim. Vinha uma camioneta pequena lá de cima da ponte, por este caminho velho.

 

ZÉ DA CRUZ

Era por este caminho!

 

JOAQUIM

Só havia este, não havia mais nenhum.

 

ZÉ DA CRUZ

Não havia a estrada ali por cima! Aquela estrada não existia, aquela estrada já foi depois.

 

JOAQUIM

E então vinha, chegava até aqui, às vezes tinham de vir os bois rebocá-la até chegar aqui mais perto.

 

CATARINA

Então vinha um carro de bois?

 

JOAQUIM

Quando às vezes quando havia muita água que [a carrinha] não chegava cá, patinava, era rebocada até aqui. Era uma carrinha pequena . Na altura não havia camiões TIR como há hoje.

 

ZÉ DA CRUZ

Pois, na altura não existia.

 

JOAQUIM

Eram carros pequenos, eram carros aí de 5, 6 toneladas. O bagaço ia em camionetas, a azeitona é que ia nos bois. Porque o bagaço ia lá para longe.

 

CATARINA

O que é exatamente o bagaço ?

ZÉ DA CRUZ

É o caroço da azeitona. Aquilo é esmagado... O português às vezes é difícil de compreender, não é? É difícil. Porque tá a ver, isto aqui é, se for para vinho é cangalho. Tirar vinho, aperta-se, sai o vinho, é cangalho. Isto aqui, vai a azeitona, sai azeite, o resto que cá fica é bagaço. .

JOAQUIM

Da azeitona saem três coisas. Sai o azeite, limpo, sai... entre o azeite e o [bagaço], chamam aziaga, que é aquela água negra, e depois sai o tal bagaço, que dá para fazer rações, dá para extrair óleo. Que aquele bagaço vai ser novamente moído. É moído novamente e espremido outra vez.

ZÉ DA CRUZ

E queimavam-no também, para aquecer a água.

 

JOAQUIM

Depois fazem adubo. A maior parte é para rações, para animais.

 

CATARINA

E a água negra, o que lhe faziam?

 

JOAQUIM

Vai pela ribeira abaixo.

 

CATARINA

Então devia ficar a ribeira negra!

 

JOAQUIM

Tá a ver que há aqui em cima uma poça, aqui na, chamam aqui a eira, ou poço do inferno. (...) O poço do inferno era mais uma precaução, era assim: tinham ali dois poços, ali de fora do lagar, duas poças de pedra, parede de pedra, boas. E então os resíduos iam para aquelas poças. Porque o azeite é como a verdade, vem sempre ao de cima. Há o ditado que diz.

 

CATARINA

E é verdade!

 

JOAQUIM

A verdade é como o azeite, vem sempre ao de cima. E então as águas negras iam para o fundo e o azeite vinha ao de cima. Depois no fundo do tal pio, do tal tanque, havia um tubo no fundo, que depois saia para fora. Como a água mais pesada ia para baixo, saia por aquele cano, e o azeite ficava ao de cima. E depois iam lá buscá-lo de vez em quando.

 

ZÉ DA CRUZ

Esse era para o dono do lagar.

 

JOAQUIM

Esse era para o dono do lagar. Era uma precaução porque na altura podia às vezes esquecer-se de uma torneira mal fechada, e então ia para aqueles poços. Mas também se aproveitava um pouco para levar.

JOAQUIM

Os meus pais não tinham azeitona, mas tínhamos muito azeite que o meu pai trabalhou sempre no lagar. Na altura, trabalhavam aqui 12 horas, aqui, para levarem um litro de azeite. Um litro de azeite!

CATARINA

Era o salário.

JOAQUIM

Quem andava a varejar nas oliveiras, que era das 8 [horas da manhã], se chovesse, se nevasse, que andava lá para não perderem o dia, um litro de azeite. Não ganhavam mais, e a mulher meio litro. Vinham de Pena Verde, a pé, e de Queiriz, daquela zona ali em cima toda, saiam lá às 6 e tal da manhã que era para estarem aqui às 8 da manhã. Andavam todo o dia a varejar, à tardinha carregavam o saco às costas lá para dentro para o povo. Não havia transportes. Era uma junta de bois mas poucos tinham...

JOAQUIM

Nós éramos 10 [irmãos], ficámos 8. O sogro [do Zé da Cruz] eram 12. A mulher dele tem mais 11 irmãos.

 

ZÉ DA CRUZ

Agora já são 10, um já morreu.

 

JOAQUIM

Estão 3 ou 4 no Algarve.

 

ZÉ DA CRUZ

Uma no Brasil. Já lá morreu um no Brasil também. E está outro em Odivelas.

 

JOAQUIM

Nós éramos 8. Já somos 5. 3 já foram.

 

ZÉ DA CRUZ

Já tiraram carta de embarque.

 

JOAQUIM

Mas como ia contando, na altura tínhamos bocados [de terreno] maiores.

 

CATARINA

Mas depois para dividir pelos irmãos todos.

 

JOAQUIM

Mas depois cada irmão tinha de ficar com um bocadinho. E então dividiam por todos os filhos, e por isso ficava cada um com o seu pedaço. Bocados grandes para todos não dava.

 

CATARINA

Depois ficava uma oliveira para cada um! [risos]

 

JOAQUIM

Havia muitas oliveiras nestes olivais, [com] oliveiras que não eram do próprio dono do olival.

 

ZÉ DA CRUZ

Isto às vezes, os pobres... não havia dinheiro. Caso nascesse um filho ou precisassem de coisas, iam pedir dinheiro aos ricos. Ficavam lá com uma oliveira, pronto, está feito. Outros iam lá pedir o dinheiro, era um bocado de terreno. Os ricos faziam assim.

JOAQUIM

Eles tinham o poder. Como dizem os populares, tinham a faca e o queijo na mão. Eles é que tinham o dinheiro, eles é que tinham o poder. Os pobres, coitados. Tinham que ir lá, de chapéu na mão. E às vezes levavam com um pontapé no rabo. Era, infelizmente... Mas olha, tudo isto mudou, o que acontece é que esses ricos hoje são mais pobres.

CATARINA

É, não é?

JOAQUIM

Hoje, os pobres daqueles tempos vivem melhor que os ricos. [Os ricos] têm as terras, mas estão abandonadas, ninguém lhas quer. Há aí grandes herdades de pessoas que ainda estão vivas e já ninguém lá vai. Eles têm-nas abandonadas, que não recebem nada, nada delas. Ninguém lhas quer.

 

CATARINA

E já não moram cá, já não tomam conta...

 

JOAQUIM

A maior parte não.

 

ZÉ DA CRUZ

Há aí muitos bocados, se fosse há algum tempo, era por à venda logo lho compravam.

 

JOAQUIM

Na altura, fossem dois metros de terreno, era tratado. Para horta, para batatas.

 

CATARINA

Para comer, não é?

E a conversa não acabou. Ficou mais extraordinária. E vou partilhá-la convosco na próxima semana.

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