“Então, vamos dar uma olhadela lá dentro!” Eu e o Dino entramos no restaurante por uma porta aberta depois de balançar uma plataforma de metal em cima de um canal de água. O restaurante está claramente em obras, como vemos pelos materiais e ferramentas espalhados, e pelo cheiro a cal no ar. Também está mais frio cá dentro que lá fora, devido às correntes de ar e paredes nuas.

“Temos um sistema geotermal, o que significa que vamos usar a temperatura da terra para aquecer a água, e depois a água vai passar pelo piso radiante"criando uma atmosfera simpática e quentinha dentro no restaurante durante os meses frios. Umas semanas depois desta converta, uma equipa começou a escavar os buracos de 100 metros de profundidade para as sondas desta fonte energética, que podem ver na foto acima! Muito entusiasmante.

O Dino leva-me então até à casa da turbina, um buraco fundo no chão, abaixo do nível do piso do restaurante, com uma abertura grande e redonda. Esta abertura vai ter uma cobertura de vidro (já encomendada, pesa 400kg!), para que os visitantes do restaurante possam espreitar a água em espiral a passar pela turbina (e talvez eu a divertir-me neste futuro escorrega de água, quem sabe, ver figura 2). “A Turbulent nunca tinha feito isto dentro de um edifício, e eles não conhecem mais nenhuma turbina vórtex no mundo instalada dentro de um edifício! É mesmo única no mundo.”

E à volta deste poço redondo há um piso baixinho debaixo de todo o edifício, com cerca de um metro de altura, para lidar com inundações quando o nível da ribeira sobe.

“A Turbulent fez os desenhos da parte elétrica, e também o desenho do poço, da espiral”, no centro da qual está a turbina. Por não ser só um círculo, mas uma espiral, “teve de ser mesmo precisa, para que a água entre e crie remoinho, idealmente sem muita resistência”. Fizeram um rascunho em tamanho real no chão para planear as dimensões do poço. Lembra-me a Espiral de Ouro, a partir dos estudos da proporção de ouro, encontrada em tantas coisas na natureza, como conchas de caracol. “Foi realmente um desafio enorme, muito para trás e para a frente, fazer e refazer”.

De repente um homem esguio com cabelo escuro, olhos verdes e roupa impecável vem ter connosco, a falar amável e curiosamente em Português. O Dino apresenta-o “O Mário é realmente um dos heróis, um dos principais responsáveis, muito determinado em fazer com isto isto funcione”.

E como tem sido trabalhar na construção desta nova tecnologia? “Isto, uma pessoa está sempre a aprender coisas novas, e gosto, gosto que seja assim." O Dino pergunta ao Sr. Mário o que lhe deu mais satisfação neste trabalho com a turbina. “Gostei de fazer. Foi uma coisa que nunca tinha feito. Agora estou curioso para ver isto trabalhar!”

O Sr. Mário vive na Aldeia Nova desde que era pequeno, um pouco a nascente da ribeira. “A minha casa é perto à ribeira, vai por aí acima vai lá ter comigo lá em cima. Isto aqui é muito bonito, é muito bonita aqui esta zona. (...) A gente está habituada à cidade, isto aqui é totalmente diferente.", diz ele, "Não há tanto stress como na cidade." Mais tarde ele junta-se a nós lá fora, de volta ao açude, e partilha o meu sonho de saltar para a piscina de 4 metros de profundidade no verão. O Dino pede ao Mário para me contar como era a ribeira quando ele era novo. 

“O canal é o mesmo. Tinha água todo o ano. Antigamente, estes terrenos, era tudo tratado, tudo cultivado aqui, e a ribeira tinha água todo o ano. Agora, não tem... Agora ninguém rega, não há água. Eu quando era miúdo, nós tomávamos banho num poço, era uma represa, como está aqui, para aguentar mais a água, e tomávamos banho todo o verão ali, todo o verão, na ribeira. Agora não, agora seca totalmente. (...) Chega aí Julho, não tem água nenhuma, sequinha sequinha. Se fosse como está agora no Verão. Olha o passarinho, vai tomar banho e tudo, olha. Olha para ele, anda cá. Queres ver que vem mesmo??” O passarinho pronto para a câmara continua a saltitar mesmo em frente a nós nos ramos na piscina. “Isto chama-se um boizano. Antigamente havia muitos passarinhos destes, andavam nas couves, a comer os bichitos das couves. Viam-se muitos muitos muitos muitos.” Pergunto ao Sr. Mário se posso tirar uma foto dele e ele fica bastante feliz, ficando também super pronto para a câmara.

“Isto agora esta semana, se vierem aí uns dias bons de chuva, vai ver, isto aqui vai encher tudo, vai correr.” Não podia ter mais razão – vejam a parte um desta reportagem, de 11 de Fevereiro, e as histórias no nosso Instagram no destaque Água.

Mas as surpresas nos planos para produção de energia não acabaram! O restaurante da ribeira vai ter um forno de pizza na esquina do piso térreo, perto da espiral da turbina. Vai ser criado um sistema de biogás para o pôr a funcionar, e pergunto ao Dino de onde vão obter o gás. “Produzimo-lo nós, a partir de resíduos orgânicos, dos restos de comido”, conta-me o Dino com orgulho. “Vamos tentar ser totalmente circulares. Por isso os restos de comida da cozinha vai ser recolhidos para criar biogás através de compostagem. E depois usamos o biogás para fazer fogo” e fazer PIZZA! O Dino e o Sr. Mário discutem então, empaticamente, quem de entre os dois vai fazer as pizzas.

Independentemente de quem fizer as pizzas, parece tudo delicioso. Para as minhas papilas gustativas e olfato, para os de quem visitar o restaurante, e para o meu sentido de sustentabilidade.

Vale das Lobas está a caminhar em direcção a uma vida sustentável na Terra.

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